Como serão os seus Futuros Carnavais?

Vinicius De Paula Machado
9 min readFeb 2, 2023

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Uma jornada de celebração de si mesmo e a cocriação de enredos colaborativos em rede…

Salve Russo Passapusso um dos maiores facilitadores do Caórdico desse país.

Inspiração

Fui convidado a dar uma aula sobre o futuro do trabalho dentro da jornada formativa do Digital Future Insights, uma parceria entre Futuros Inclusivos, Fa.vela e Uk Brazil Tech HUB. Foi uma jornada que me tocou muito pela forma afetuosa e acolhedora como conduziram cada etapa da jornada formativa e pelo altíssimo nível técnico do grupo de professores, dos mentores e da equipe envolvida. Sinto-me honrado em fazer parte desse grupo, pois trata-se de uma formação de articulistas de futuros para pessoas de diferentes etnias, gêneros, estados e orientações sexuais, reunidos nessa vontade de mudar o mundo e focadas em protagonizar e transformar os futuros que sonham para si e para todos que estão ao seu redor.

O programa tem um papel fundamental de democratização de conhecimentos, conteúdos, abordagens e referências que, muitas vezes, ficam acumulados nas mãos de poucos, gerando, assim, uma enorme crise de curadoria e falta de representatividade na cocriação de múltiplos futuros sob influência de poucos e privilegiados tradutores e habilitadores de futuros. Nesse contexto, o mercado acaba consumindo e reproduzindo discursos, posicionamentos e manutenções de injustiças estruturais, carregadas de passados mal resolvidos,presentes de muita incoerência, que geram estoques de futuros limitados/ previsíveis e elitistas.

Foto tirada essa semana com o João Souza, co-fundador do FA.VELA e Futuros Inclusivos no Rio.

VERSÃO ADUBADA

Esse artigo é uma versão atualizada e suplementada da versão original que foi publicada juntamente com outros artigos dos professores na conclusão do Digital Future Insights.

Buscando remixar assuntos relacionados ao futuro do trabalho, novas economias, estratégias de impacto, aprendizados de comunidades de práticas que fazemos parte e o que chamamos de Design com Ecossistema no Centro do Processo (Ecosystem Center Design) me inspirei em uma música do primeiro cd do Baiana System, chamada Frevo Foguete, como acordes iniciais dessa troca.

“Vai adentrando na avenida Baianasystem
Com seu frevo foguete em órbita da terra
O que será da guitarra baiana?
Como serão os futuros carnavais?”

Assim, a ideia deste texto é promover uma reflexão lúdica sobre três dimensões importantes a serem cuidadas na jornada de desenvolvimento desses agentes de mudança/compositores de futuros mais inclusivos e regenerativos, sejam esses leitores da Gamboa baiana, na Gamboa zona portuária do Rio de Janeiro (onde empreendemos a Goma) ou de qualquer outro território e soundsystems na órbita da Terra, que gostem ou não de carnaval.

Aqui, invoco uma liberdade de gostos musicais, experiências de carnavais e caminhos espirituais, para que possamos acolher a importância de celebrar a vida e a jornada de cocriação de futuros em alto astral e de sorriso aberto, pois tão importante quanto a direção a que queremos ir, é a qualidade do como caminhamos, pois só assim descobriremos a real possibilidade do “vir a ser” de nossos futuros.

A pessoa que ama caminhar, caminhará mais longe do que a pessoa que ama o destino. Quando você se apaixona pela jornada, todo o resto se resolve.

Convergência dessas 3 dimensões com estratégia busca por uma Jornada Coerente e Regenerartiva

SOBRE O COMPOSITOR (Agente de Mudança)

Ética do cuidado como enredo de construção de futuros regenerativos

O cuidado tem uma dupla função: prevenir danos futuros, reparar e regenerar os danos passados. Esse é o valor do cuidado. (Bernardo Toro, 2011).

Consideramos que compositores de Futuros, agentes de mudança (empreendedores, inovadores socioambientais, ativistas, futurologistas, articuladores culturais, detentores de conhecimentos ancestrais etc) devem ter um compromisso com a Ética do Cuidado.

A ética do cuidado baseia-se em três valores fundamentais: 1) Saber cuidar (de si, do outro e do que é de todos); 2) Saber realizar transações em que ambas as partes ganham (ganha-ganha); 3) Saber conversar.

1) Saber cuidar (de si, do outro e do que é de todos)

Como compositores desses enredos de mudança, os agentes serão testados de forma intensa e caótica até a materialização das transformações que desejam. E se não tomarmos cuidado, gatilhos e tipos de padrões de comportamento ganha-perde se manifestam quase que automaticamente, seja pelo tempo de mudança necessário ou pela complexidade do desafio a ser solucionado.

Um padrão comum é se assumir com a persona do “Salvador(a)” — que está disposta a todo e qualquer forma de sacrifício pela causa/propósito, acumulando funções, responsabilidades e, possivelmente, reproduzindo perspectivas de comando e controle, mesmo que sutis, para tocar a música do seu jeito, pois considera que são os únicos arranjos corretos a serem tocados.

É preciso autorregulação, autocuidado, empatia e redes de apoio para que possamos não só sobreviver dos impactos positivos que queremos gerar, mas sim vivê-los de forma digna. A ética é um conjunto de critérios que nos permite tomar decisões perante dilemas e selecionar o que nos permite viver dignamente.

Amo aqueles que plantam árvores mesmo sabendo que nunca se sentarão em sua sombra. Plantam árvores para dar sombras e frutos para aqueles que ainda não nasceram. (Rubem Alves)

Rede de Apoio como Caixas de Retorno

Busque, de tempos em tempos, investigar-se de forma profunda e carinhosa, ampliando essas percepções através do olhar dos outros ao seu redor (equipes, parceiros profissionais, redes por onde você interage e amigos/familiares), recebendo não só feedbacks sobre pontos e características que você pode e deve aprimorar, mas principalmente, apreciações positivas sobre você. Re-entender quais são seus valores, habilidades, fase de desenvolvimento profissional e qualidades de entrega em suas relações amplia sua percepção sobre si mesmo e acomoda melhor essa reverberação de intenções, ajudando como um sonar a ouvir, sentir e vivenciar essa rede de relacionamentos e ritmos nessa construção de futuros.

SOBRE O PROPÓSITO E A ESSÊNCIA DA JORNADA (RITMO)

2) Saber realizar transações em que ambas as partes ganham (ganha-ganha)

Hoje vemos o padrão de redes influenciando cada vez mais novas experimentações dentro de diferentes culturas organizacionais empresariais/institucionais.

Compositores de futuros, por propósito ou por necessidade, que podem estar dentro de instituições promovendo mudanças estruturais/culturais ou em equipes enxutas em empreendimentos recentes, ONGs ou redes vão precisar articular, encantar e facilitar o ordenamento de diferentes naipes de talentos (Viva Mestre Letieres e a Orquestra Rumpilezz), inteligências e experiências profissionais em prol da propagação do seu enredo de mudança.

Habilidades que podem ser desenvolvidas por uma liderança facilitadora / habilitadora de futuros

É cada vez mais comum ouvir referências sobre as dez principais habilidades a serem desenvolvidas relacionadas ao futuro do trabalho, segundo o Fórum Econômico Mundial. São elas:

  • Pensamento analítico e inovação;
  • Aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem;
  • Solução de problemas complexos;
  • Pensamento crítico e análise;
  • Criatividade, originalidade e iniciativa;
  • Liderança e influência social;
  • Uso de tecnologia, monitoramento e controle;
  • Projeto e programação de tecnologia;
  • Resiliência, tolerância ao estresse e flexibilidade;
  • Raciocínio, resolução de problemas e ideação

Ao olharmos para essa lista de atributos e mentalidades desejados pelo mercado / sociedade para esse futuro próximo desejável, percebemos quatro grupos mentalidades e habilidades:

A) Resolução de problemas — Pensamento analítico e inovação; Solução de problemas complexos; Pensamento crítico e análise; e Criatividade, originalidade e iniciativa.

B) Autogestão — Aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem; e Resiliência, tolerância ao estresse e flexibilidade.

C) Trabalho com pessoas — Liderança e influência social / de rede.

D) Uso e desenvolvimento de tecnologias — Uso de tecnologia, monitoramento e controle; e Projeto e programação de tecnologia.

Três dos quatro grupos são o que podemos chamar de “ciências de baixa tecnologia”, referindo-se a habilidades analíticas, comportamentais e interpessoais, possíveis e necessárias de serem praticadas em qualquer contexto.

Esse tipo de alinhamento de ritmos, suplemento de talentos e camadas sonoras, exigirá dos seus músicos (equipes multidisciplinares) abertura, para que haja improvisação, e espaço, para que os talentos possam se desenvolver ao longo do percurso.

Por isso, acreditamos que habilidades de facilitação podem e devem ser desenvolvidas como habilidades primárias ou secundárias independentemente de papel, de responsabilidade, de segmento ou de setor da sociedade. Ao se colocar a serviço como líder/anfitrião de processos cocriativos, será permitido desenvolver uma série de habilidades que são cada vez mais valorizadas nos dias de hoje.

Comunidades de prática — Como suporte a um aprendizado continuado de ritmos e instrumentalizações das partes interessadas

“Já aconteceu com você, aconteceu comigo
O fogo que queima em você também queima comigo”

Fogo, Baiana System

Precisamos incentivar uma transição de aspectos de liderança associados a uma inteligência guerreira para uma inteligência altruísta, uma inteligência solidária capaz de cocriar novas ficções socioambientais com várias partes interessadas.

Não se desenvolve senso de pertencimento, cultura organizacional, articulação de rede ou visão de futuro coletiva sem que as partes cocriem / construam coletivamente algo.

É pelo ato de criar em conjunto que temos a capacidade de gerar novas transformações nos sistemas de aprendizagem, desenvolver novas lideranças para distribuição sustentável de responsabilidades e geração de impacto desejado e o fortalecimento e aproximação das partes envolvidas no processo.

“Não existe gestor de comunidades.”

Precisamos entender que a inteligência é um bem solidário, e esse aspecto de inteligência está relacionado a: a) Aprender a perguntar, b) Aprender com quem interagimos e c) Aprender a responder quando nos fazem perguntas significativas.

Em um mundo cada vez mais complexo, líquido e caórdico, hoje, inteligência e novas formas de protagonismo estão muito associados a saber pedir ajuda, a formular perguntas que ainda não estão sendo feitas e articular as partes certas com as motivações adequadas para convergir esforços.

O que é um grande líder? É alguém que sabe pedir ajuda à inteligência coletiva e facilita esforços de execução das várias possibilidades de estratégias de engajamento e articulação das partes. (Bernardo Toro)

Sejam jornadas formativas como o Future Lab do João e da Tati ou o dos Multiplicadores B, iniciativas como o Papo de Futuro da Jess Castro, Computação da Hora e o Ogunhê da Nina da Hora, grupos de auto-cuidado e incentivos a práticas saudáveis como As Bem Suadas gentilmente incentivadas pela Isa Nardini e Denise Saito (que também e fundadora do Freela School) ou o OCLB comunidade de criadores de experiência do querido casal Franklin e Carol são alguns exemplos de comunidades de prática e anfitriões que admiro e me inspiro na minha jornada ultimamente.

Mas aqui também estamos falando de afoxés, blocos de carnavais de rua, bate bolas (clovis), encontros de juventudes em igrejas, coletivos de artistas, soundsystens seja lá qual for representação do seus pares, conecte-se.

Essas comunidades de práticas, redes, espaços de troca podem e devem ser visto como plataformas de aceleração de transições, adoção de novos hábitos, ampliação de capacidades de articulação e ou aprendizados de novas habilidades podem ser das mais diversas possíveis.

SOBRE A AFINAÇÃO — ESTRATÉGIA DE ENGAJAMENTO [BANDA/BLOCO/TRIO]

3) Saber conversar — Estratégias de engajamento interna e externa dentro de diferentes abordagens de cocriação de futuros.

Quando compositores e ritmistas estão com propósitos e expectativas alinhadas, é hora de afinação, definição da composição do coletivo e da forma de engajar os demais públicos interessados.

Diálogos funcionam de maneira a transformar uma situação de fragmentação em situação de conexão e completude. Por meio de práticas de inclusão, encontramos modos de conectar e incluir diferentes vozes e partes de um sistema e, assim, de fato passamos a celebrar a inteligência coletiva e a pluralidade de vivências.

É através de um fluxo claro de interações e intenções entre as partes, que se permitirá a possibilidade de contribuições autênticas na geração de impacto e na construção de futuros em que as pessoas realmente sentem pertencimento no processo e orgulho do resultado gerado.

Quanto maior a tese de mudança, maior será a necessidade de articulação de múltiplos interesses, agendas e culturas organizacionais diferentes incluindo, aqui, a necessidade de inserir antagonistas, competidores, concorrentes etc.

Afinal de contas, desafios complexos vão exigir ainda mais de nossa capacidade de interagir, entender, empatizar e inclusive colaborar com o diferente e muito possivelmente até o antagônico.

Amplifique-se

A quem mais essa mensagem de Carnaval chegar, desejo meus mais profundos votos de que sejam generosos com vocês mesmos, de que respeitem a autenticidade de suas jornadas, de que saibam fazer bons pedidos de ajuda e de que articulem, da forma mais potente, regenerativa e ritmada possível, seus futuros carnavais…

Não perca tempo
Monte logo seu sound system satellite
Em volta da terra
E faça
Para toda a humanidade
O seu carnaval
Bom Carnaval e até breve
Até breve…

E que Pachamama nos proteja

E quem as benções de Iyemanjá essa mensagem possa ecoar…

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Vinicius De Paula Machado

Empreendedor social, sócio fundador da Decah uma empresa B que fomenta comportamento colaborativo para catalisar cultura de inovação social